Velado/Revelado

A superfície branca, neutra e disponível, do neo-plasticismo, nas mãos de Sheila Mann, torna-se mole, fugidia, irregular e fragmentária. As linhas dispostas longitudinalmente nesse relevo logo são amalgamadas. Ao mesmo tempo em que dividem a tela, passam a ser incorporadas ao corpo das pequenas formas brancas. O preto perde a pureza da linha como corpo geométrico e passa a exercer a função subordinada de limite e distância entre os corpos.
As formas brancas não se acomodam ao gradeado negro, que parece sofrer com o calor dos corpos que deveria reter. Esta estrutura avariada de blocos brancos e linhas enfraquecidas não sustenta outras formas brancas e as estáveis formas vermelhas, como pode parecer. Dessa maneira não resta nenhum ponto de apoio.
Com todos os sinais indicando a queda, o equilíbrio se mantém, a imagem não desaba e nem se desintegra. De que ordem seria esta sustentação? É surpreendente que mesmo diante de tamanho grau de heteronomia dos componentes desta pintura, uma objetividade clássica tenta se estabelecer. Com a clareza e a unicidade necessárias para que estas partes falem artisticamente.

Tiago Mesquita